
LAPPIS
08/03/2010 - 17:06:55
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ENTREVISTA
Paulo Amarante, médico psiquiatra, doutor em Ciências da Saúde e professor do curso de especialização em Saúde Mental da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), recebeu, recentemente, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Popular das Mães da Praça de Maio, na Argentina, pela primeira vez concedido a um cidadão não argentino. Amarante participou de uma mesa-redonda do V Seminário Nacional do Projeto Integralidade, realizado pelo Lappis, em setembro, e coordena o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e o Grupo de Trabalho de Saúde Mental da Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva (Abrasco).
Em entrevista ao BoletIN, o professor fez um panorama do tratamento psiquiátrico e apresentou novos paradigmas.
Como é o tratamento psiquiátrico tradicional?
É o chamado modelo da terapia tradicional ou pineniano que considerava o sofrimento mental uma alienação. E o alienado é, por definição, possuidor de um distúrbio na razão. Por isso ele se torna incapaz de compreender a realidade e viver em sociedade. É importante ressaltar que esse conceito de razão, que possui raízes no iluminismo, é o que diferenciava o homem dos outros seres. Assim, o homem que não tem razão se aproxima do grotesco. Dessa maneira, a alienação acaba sendo sinônimo de periculosidade. Daí a idéia de reclusão, onde as pessoas poderiam ser não apenas tratadas, mas também vigiadas, controladas. Hoje, o tratamento ainda é centrado na internação hospitalar. Esse modelo já funciona há mais de 200 anos e é o modelo predominante na maioria dos países.
Esse modelo ainda impera no Brasil?
Sim. Mas, os números já foram maiores. Já chegamos a 80 mil leitos para pessoas com transtornos mentais. Um grande exemplo é o Juqueri, em São Paulo, que sozinho chegou a possuir cerca de quinze mil leitos.
"Ainda falta muito para substituirmos a visão “medicalizante”, centrada na relação com a doença em vez de uma visão centrada nas pessoas."
E no Rio de Janeiro, que tratamento psiquiátrico vigora?
O Rio ainda tem muito leito psiquiátrico e muita resistência ao novo paradigma. Instituições, profissionais e até as universidades resistem ao novo modelo. A cidade do Rio tem ainda muito poucos serviços inovadores que deveriam ser substitutivos ao modelo manicomial. Ainda falta muito para substituirmos a visão “medicalizante”, centrada na relação com a doença em vez de uma visão centrada nas pessoas.
Quando começou a surgir um novo paradigma do tratamento psiquiátrico?
No final dos anos 70, a irracionalidade desse sistema começa a ser denunciada. Foi quando começou a ser mostrado que os pacientes eram muito mais vítimas do que ameaças para a sociedade. Esse movimento começa com o questionamento do tratamento pineniano. Percebeu-se que transtornos mentais não significam incapacidade de sentimento e entendimento.
Qual é esse novo paradigma?
Na verdade, a grande questão desse novo paradigma é o questionamento do conceito de razão. Mas a transição é complicada. Precisamos lidar com o sujeito, construir outras possibilidades de tratamento. Por exemplo, muitos não têm famílias. Por que não criamos um grupo então? Há uma série de outras possibilidades.
"A reforma do tratamento psiquiátrico caminha rumo à integralidade, entendida em seu sentido mais amplo que é o de transbordar o problema da doença e penetrar em todas as dimensões da vida do sujeito."
Como a integralidade se insere nessa discussão da saúde mental?
A reforma do tratamento psiquiátrico caminha rumo à integralidade, entendida em seu sentido mais amplo que é o de transbordar o problema da doença e penetrar em todas as dimensões da vida do sujeito. Por exemplo: muitos pacientes ficaram muito tempo em hospitais e nunca freqüentaram escolas. A saída seria construir uma escola para esses pacientes? Não. A saída deve ser buscar a intersetorialidade. Nós devemos procurar a secretaria de educação e criar caminhos na linha da intersetorialidade. Integrar as pessoas com transtorno mental nos espaços. Essa deve ser a solução. Saber como podemos inserir as pessoas. A idéia não é segregar, mas integrar.
Já existem experiências assim?
Sim. Muitas estão relacionadas às artes. Um exemplo é o grupo musical Harmonia Enlouquece. Mas existem muitos outros. Mas é difícil chegar a um secretário e pedir tintas, pandeiro, violão... Outra coisa importante é saber que a loucura é uma manifestação do artista, mas que todos, inclusive os loucos, gostam de arte. O problema é que eles eram tão segregados que só agora se descobriu que eles gostam de cantar, dançar e brincar.
A formação da equipe para trabalhar dentro deste paradigma também deveria ser outra? Seriam as equipes multiprofissionais?
Sem dúvida que a formação deve ser outra. Mas prefiro não falar em multiprofissional. A profissão é um meio corporativo. Eu prefiro falar de uma equipe de operadores, pessoas que trabalham, trabalhadores da saúde, que é algo mais próximo do conceito de transdisciplinaridade, algo que transcende a disciplina. O grupo deve se organizar em torno do paciente, e não o contrário. A equipe deve ser móvel para se adequar um pouco a cada situação. E eu me dedico a isso há anos. O curso em que eu dou aula vai fazer 25 anos. E estamos voltados para uma formação diferente, que não trabalha com a idéia de mercado no sentido tradicional.
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